quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Sonhos éticos e étnicos


Marcos Terena *


Como Índio Terena, Xané desse Estado e criado sob as bênçãos do Evangelho recordo do ensinamento bíblico do Bom Samaritano, da primeira missa no Brasil e penso em como seria a reação de pastores e padres na missa ou culto de hoje, diante de mais um assassinato contra os irmãos Guarani e Kaiwá que já haviam perdido Marçal de Souza, Marcos Veron e agora, Nisio Gomes, todos mortos com requinte de crueldade.

Por outro lado, como reagem os governos de Puccinelli ou Dilma Roussef e suas forças policiais federais ou estadual diante da crescente e impune agressão que as comunidades indígenas vem sofrendo na busca do direito básico e moral da demarcação das Terras.

Como reage o cidadão sul-mato-grossense ao ouvir a canção de Almir Sater, Sonhos Guarani.

Mato Grosso do Sul se orgulha de seu Pantanal, do boi verde e de suas gentes, entre as quais, a segunda maior população indígena do País.

Porém, carrega consigo a vergonha de ser o Estado que mais viola os direitos dos povos indígenas inclusive com o registro de vários assassinatos sem solução.

As formas utilizadas pelo inimigo da paz no campo e dos povos indígenas são quase idênticas seja contra o pequeno agricultor, o trabalho escravo, os Guarani, Terena e Kaiwá que mesmo com direitos reconhecidos vivem sob o medo e tensão diante da violência, discriminação, desrespeito aos valores humanos e a certeza até hoje, da impunidade.

O Governo Federal é o responsável pela demarcação das terras e pela proteção dos direitos indígenas.

A Justiça brasileira principalmente a de Mato Grosso do Sul também tem sua cota de responsabilidades e
deve através de suas instancias coibir sob qualquer argumento a violação dos valores humanos indígenas, individual ou comunitária, corrigindo possíveis enganos ou desacertos e assim, a discriminação e a intolerância.

Mas cabe ao Legislativo Estadual ou Federal regulamentar sem qualquer protelação política, a garantia dos recursos orçamentários e legais para a segurança dos indígenas como povos originais, dos camponeses ou fazendeiros pois é nisso que está a chave do respeito mútuo, da paz e da qualidade de vida com que todos sonhamos.

Nós Povos Indígenas temos orgulho do Mato Grosso do Sul. Foram nossos antepassados que receberam gente de todos os Povos como árabes e judeus que até hoje vivem em conflito em suas terras, para convivermos juntos como irmãos brancos e negros.

Sabemos das responsabilidades constitucionais de cada setor governamental, mas não podemos continuar com esse clima de medo em nossas aldeias que clamam por justiça. Não devemos aceitar mais a impunidade, mas exercitar um principio ético e étnico: respeito a diferença, a diversidade no direito de viver como irmão solidário, justo e lutador, mas jamais omisso!


Fonte:
(*)Articulador dos Direitos Indígenas e Membro da Comissão Brasileira da Justiça e Paz.

Índios temem que Puccinelli influa em laudo pericial do caso Nisio

Há um temor entre a comunidade indígena da região de Dourados de que possa haver uma suposta interferência do governador Puccinelli no resultado das provas periciais que podem atestar, cientificamente, o que o atentado ao cacique Nisio Gomes pode ter sido fatal.

A reportagem apurou o questionamento depois da divulgação da notícia de que foi a Polícia Civil do MS, através da sua regional em Ponta Porã – e não a Polícia Federal-quem coletou as provas materiais do crime, como sangue, o chapéu, os cartuchos – e que realizou o levantamento fotográfico do local.

O material coletado foi enviado para Campo Grande, à Coordenadoria Geral de Perícias, órgão da Secretaria de Justiça e Segurança Pública do governo estadual, situado no Parque dos Poderes, próximo à Governadoria. O material está sendo examinado no Instituto de Análises Laboratoriais Forenses.

O temor dos indígenas foi expresso em contato telefônico, por uma das mais respeitadas lideranças indígenas que acompanha o caso desde o início.

A fonte, que tem receio de se revelar, afirmou quer o governador sempre demonstrou, publicamente, sua falta de respeito às comunidades indígenas do estado.

Um exemplo foi a expressãode Puccinelli, em agosto deste ano, em Dourados: “Dá papinha pro índio, dá comida pro índio, dá camisinha [sic], camiseta pro índio, dá kit escolar pro índio, dá escola, dá casa pro índio, agora vai ter que trocar pro índio também?”

Outro exemplo de manifestação de Puccinelli ocorreu em um seminário na Assembleia Legislativa, em maio deste ano, que provocou a reação do deputado Pedro Kemp:“Puccinelli quis jogar para a plateia, falou o que os fazendeiros queriam, desrespeitou os índios e o presidente da Funai, enfim, o discurso dele não contribuiu em nada. Pelo contrário, envergonhou o nosso Estado”.

No entanto, é preciso ressaltar que peritos profissionais e sérios nunca conduzem investigações criminais para atestar um “laudo encomendado”. Além disso, a presença da PF é constante no caso.

Em relação ao caso Nisio, a fonte indígena revelou um dado ainda não comentado - que muito sangue saiu da área frontal do rosto e do tórax do cacique, segundo ouviu de filho, Valmir Cabreira – que foi levado pela Funai para local ignorado.


 
PF afirma que não está vazando informações da perícia

Oficialmente, a assessoria de imprensa da Polícia Federal informou a pouco, por telefone, do local do crime, que não está fornecendo detalhes oficiais das investigações para nenhum veículo de comunicação.

O assessor ainda informou que o encontro de cartuchos não letais –balas de borracha, que também provocam sangramentos, principalmente na cabeça, não exclui a possibilidade do uso de outras armas letais - cuja munição teria sido se alojado como corpo do cacique, ou recolhidas depois dos disparos, em caso de cartuchos.

Ou mesmo a execução do cacique em outro lugar desconhecido. A informação diz respeito a versão de que o cacique poderia estar vivo.

Se cacique não tivesse sido removido do local, com em casos anteriores de mortes de indígenas na região, tudo seria mais fácil de esclarecer.


Chapéu que era do cacique está lacrado, segundo PF

Notícias da região informam que a perícia questiona o fato do chapéu do cacique Nisio não conter sangue, versão negada, oficialmente, porque o chapéu está lacrado, segundo o assessor da PF.

Também foi comentado o fato da perícia da Policia Civil estar procurando saber se o sangue encontrado no local é humano –que se não for atestado com clareza, colocará muitos pontos de interrogação no caso.Hoje, peritos da Polícia Federal e da Policia Civil fizeram mais um pente fino no local do atentado, à procura de mais vestígios do uso de armamentos letais.


MPF vai abrir ação penal em outros casos de sumiços de corpos

O Ministério Público Federal enviou nota informando que o assassinato de dois professores indígenas, que tem como indiciados um vereador, fazendeiros e o ex-prefeito de Paranhos, é alvo de ação penal. Na nota ainda informa que procurador da República, Thiago dos Santos Luz, que conduz o processo, critica a atuação morosa da polícia.

“Seis pessoas foram denunciadas pelo Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul (MPF/MS) pelo envolvimento no ataque à comunidade indígena Ypo'i (Paranhos, sul do estado) e a morte dos professores indígenas Jenivaldo Vera e Rolindo Vera. Entre os denunciados estão políticos e fazendeiros da região. Eles são acusados por homicídio qualificado – sem possibilidade de defesa da vítima -, ocultação dos cadáveres, disparo de arma de fogo e lesão corporal contra idoso.

Foram denunciados Fermino Aurélio Escolbar Filho, Rui Evaldo Nunes Escobar e Evaldo Luís Nunes Escobar - filhos do proprietário da Fazenda São Luís -, Moacir João Macedo - vereador e presidente do Sindicato Rural de Paranhos-, Antônio Pereira - comerciante da região, e Joanelse Tavares Pinheiro – ex-candidato a prefeito de Paranhos.”

O MPF entende que há elementos suficientes contra os denunciados para a abertura da ação penal. Para o procurador da República Thiago dos Santos Luz, “não se pode pretender encerrar precocemente o caso e impedir o órgão acusatório (MPF) de provar as suas alegações, no âmbito do devido processo legal. Além de todo o arcabouço fático-probatório produzido durante as investigações, já bastante para autorizar a deflagração do processo penal, outras medidas estão em curso.”

Ainda segundo o procurador, “é intrigante constatar que pelo menos seis indígenas, as únicas testemunhas oculares dos fatos, em depoimentos detalhados, verossímeis e harmônicos, prestados logo após os crimes, tenham expressamente nominado e reconhecido três indivíduos que participaram direta e pessoalmente do violento ataque a Ypo´i e nenhuma delas tenha sido sequer indiciada pela autoridade policial, que concluiu o caso sugerindo o arquivamento. Pergunto-me: quantos testemunhos mais seriam necessários? Depoimentos de índios não valem nada?”.


Fonte:
23/11/2011 14:45

Comitiva da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República vistoria acampamento indígena em Amambai

Uma Comitiva ligada ao gabinete da Presidênci da República, mais especificamente a Secretária Nacional de Direitos Humanos, está nesta quarta-feira (23) em Ponta Porã, em agenda que tenta esclarecer à presidência dos fatos ocorridos na última sexta-feira (18) na região de Amambai, quando jagunços invadiram o acampamento Tekoha Guaiviry e que,segundo relatos dos indígenas guarani-kaiowá, mataram o cacique Nísio Gomes, líder do acampamento.

Representando a Ministra de Maria do Rosário, o Secretário Executivo da Secretária de Direitos Humanos da Presidência da República, Ramaís de Castro, cargo com status equivalente a de Vice-Ministro, está em Ponta Porã com equipe da pasta, sendo eles, Domingos Sávio, Procurador da República exercendo a função de Ouvidor Nacional de Direitos Humanos. Coordenadora-Geral do Programa de Proteção a Defensores de Direitos Humanos, Clarissa Jokowski, e a assessoria de imprensa da secretaria.

Durante a manhã eles se reuniram com a o coordenador regional da FUNAI em Ponta Porã, Silvio Raimundo da Silva e com o superintendente da Polícia Federal, Edgar Paulo Marcon. Ainda na tarde desta quarta-feira, a comitiva se dirige para a região onde ocorreu a ‘chacina’, nas imediações da MS-386.


Fonte:
http://www.midiamax.com.br/noticias/777112comitiva+secretaria+direitos+humanos+presidencia+republica+vistoria+acampamento+indigena+amambai.html
23/11/2011, 11:56

"O Sorriso Matado"

Relato colhido de Kuarahy, um dos participantes do ato de apoio a Guaiviry

Chegamos à beira da rodovia onde entramos para o tekoha Guaiviry por volta das 16h. Em menos de meia hora de caminhada, chegamos ao local onde eles estão acampados. O grupo está na mata, estão bem. Decidiram que vão ficar ali, porque a terra lá é deles mesmo, eles não querem sair de lá. Já é a quarta vez que eles retornam para aquela terra. O Kaiowá é assim, quando decide uma coisa, ninguém segura. Nós chegamos e fomos ver os barracos deles, o pessoal foi dançar com eles. Eles já fizeram um yvyra'i (altar) lá.

A Polícia Federal e a Funai já estiveram com o pessoal lá, mas o que falta é eles visitarem mais vezes, porque os jagunços das fazendas estão rodeando, vigiando direto. Não teve nenhum ataque até agora, mas as pessoas não estão dormindo bem, principalmente as crianças e os idosos, eles não estão tranquilos.

A decisão deles é permanecer lá. É difícil, essa é a resistência deles... Eles ficaram contentes pela solidariedade que nós fomos levar para eles.

Nós ficamos lá conversando com o pessoal do acampamento, quase duas horas. Fomos dar uma força para eles, para eles continuarem firmes na luta. Depois a gente voltou e vimos que estava cheio de caminhonetes lá, e o ônibus junto. Antes de a gente chegar na estrada, pra pegar o ônibus, eles o levaram na direção de Ponta Porã. Estava muita gente lá, quase escurecendo já. Tinha uns 20 a 25 carros e caminhonetes lá em volta do lugar onde ele estava parado antes. Eles se juntaram mesmo.

Duas horas

Daí prenderam o ônibus por quase umas três horas. Nós ligamos para o motorista, mas nada. E nós ficamos lá, na beira da estrada. Daí de repente chegou um monte de fazendeiros e ficaram perguntando o que a gente estava querendo. Falamos para eles que nós apenas fomos visitar o pessoal lá, ver como estava a situação deles. Eles pensavam que nós íamos invadir e ficar lá. O pensamento deles era esse. Nós estávamos todos pintados, com flechas.

Nós explicamos para eles que só tínhamos ido em solidariedade, em apoio aos parentes que estavam lá. E aí pressionamos para que liberassem o ônibus, nós só queríamos ir embora, não estávamos lá para fazer nada.

O que nós percebemos era que eles estavam querendo identificar todos que estavam lá. Rodearam a gente com os carros, ligaram os faróis. Só que a maioria que está lá não tem mais medo...

Toda hora eles ficavam perguntando quem eram as nossas lideranças.

Colocaram várias cachaças suspeitas no caminho, certamente achavam que nós íamos beber. Também deixaram duas marmitas na estrada. Nós deixamos tudo lá. Podíamos ter trazido, mas com o desespero... Naquele momento a gente não pensou nisso, teria sido bom trazer mesmo para ver o que tinha nas garrafas. Cortaram tudo as mangueiras do ônibus também.

Eles falaram para que nós saíssemos da entrada, pelo menos uns 200 metros. O medo dele era a gente pegar as sacolas no ônibus e entrar na mata. Eles queriam prender alguém, pegar alguém que fosse o responsável. Foi difícil, mas nós conseguimos sair e voltar para casa.

Mas nós não éramos de uma só aldeia, éramos um movimento de solidariedade. Nós estamos lutando, resistindo, lutando pela terra, e essa luta vai continuar, essa é uma decisão que todos os Guarani-Kaiowá tomamos. Nós resolvemos fazer essa visita lá nos eventos que fizemos no Ita'y e no Laranjeira (Encontro de Acampamentos e Jeroky Guasu, poucos dias antes).

Foram umas quase duas horas que eles ficaram impedindo que a gente fosse embora. Eles jogavam farol para tentar nos identificar. A sorte é que o pessoal estava tranquilo lá, o pessoal não tinha ido lá para brigar, tinha ido só para fazer a visita. Mas eu acho que talvez eles queriam que a gente fizesse alguma coisa para eles poderem reagir...

Luta pelo que é nosso

Isso é do nosso movimento, nós estamos lutando pelo nosso direito, pelo que é nosso. O objetivo de visitar lá era mostrar que nós queremos dar um basta à violência! E mostrar que estamos resistindo! Isso é que é importante, não foi só uma liderança, não foi só o Guaiviry que decidiu isso. Existem outras áreas que estão na mesma situação, nós estamos somando nossas forças.

Ninguém vai fazer por nós, somos nós mesmos que temos que fazer. Como nós vemos lá, o Guaiviry, o pessoal está resistindo, estão dizendo que vão permanecer lá, apesar do perigo, da dificuldade, da falta de atendimento. Essa é a decisão deles, e a decisão de cada um que está numa retomada hoje: Ypo'i, Kurusu Amba, Pyelito. Isso é o que de fora as pessoas têm que ver.

Quando a gente decide, para quem está de fora, pode parecer arriscado, mas ninguém nos segura!

Por enquanto, lá no Guaiviry, ainda não houve nenhum ataque. Uma pessoa nos contou que quase encontrou com um pistoleiro enquanto estava andando pela mata. Esse é o perigo que eles estão passando. No momento, não estão sendo atacados, mas nunca se sabe...

Nós temos a informação de que os fazendeiros estão usando outros indígenas para identificar as pessoas que estão lá e tentar convencê-los a sair e voltar a acampar em alguma outra área. Os fazendeiros estão dando dinheiro a essas pessoas, que são conhecidas lá na região. Disseram também que já foi um secretário da Prefeitura de Aral Moreira lá.

Alguma comida eles têm, mas a questão da assistência à saúde, sabe como é, eles dificultam tudo. A preocupação maior é com as crianças.



Fonte:
Por e-mail
Egon Eck

“Índios se tornaram os novos judeus”, diz carta de estudantes da UEMS de Amambai

Uma carta escrita por acadêmicos indígenas dos cursos de Ciências Sociais e História da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) e moradores da aldeia de Amambaí, começou a circular por email. A carta, que não tem endereçamento, ou seja, é aberta à sociedade, relata de forma clara e contundente a maneira como se sentem os indígenas Guarani e Kaiowá da região.

Na carta os indígenas relatam como se deu o atentado que tirou a vida do líder Nísio Gomes, nesta sexta-feira (18), pedem união e justiça, mas afirmam que “o estado, os políticos e a sociedade são cúmplices dessa violência quando eles não falam nada, quando não fazem nada para isso mudar” e que “os índios se tornaram os novos judeus”.

Os acadêmicos afirmam que os relatos sobre a morte de Nísio, partiram de um jovem que estava no acampamento Tekoha Guaiviry e que de cima de uma árvore, após o início de um violento tiroteio, viu a morte da liderança. “Ele contou logo em seguida. Ele ligou chorando muito. Ele contou que chutaram o corpo de Nísio para ver se ele estava morto e ainda deram mais um tiro para garantir que a liderança estava morta”, afirma a carta.

Eles continuam o relato: “Ergueram o corpo dele e jogaram na caçamba da caminhonete levando o corpo dele embora”. Na carta eles dizem que os pistoleiros entraram no acampamento em fila já chamando por Nísio. “Quando Nísio é visto, recebe o primeiro tiro na garganta e com isso seu corpo começou a tremer. Em seguida levou mais um tiro no peito e na perna. O neto pequeno de Nísio viu o avô no chão e correu para agarrar o avô. Com isso um pistoleiro veio e começou a bater no rosto de Nísio com a arma”, relatam.

Segundo eles, mais duas pessoas teriam sido assassinadas, sendo que outras foram alvejadas, mas sobreviveram. Eles contam que as pessoas gritavam e corriam de um lado para o outro, tentando fugir e se esconder no mato. Com isso, algumas se jogavam de um barrando que tem no acampamento, sendo que um jovem ao fazê-lo quebrou sua perna e teve de ser escondido pelos outros em baixo de galhos de árvore para não ser morto.

A indignação dos indígenas é latente no relato: “Afinal, o que é o índio para a sociedade brasileira? Vemos hoje os direitos humanos, a defesa do meio ambiente, dos animais. Mas e as populações indígenas, como vem sendo tratadas?”.

“As pessoas que fizeram isso conhecem as leis, sabem de direitos, sabem como deve ser feita a demarcação da terra indígena, sabem que isso é feito na justiça. Então porque eles fazem isso? Eles estão acima da lei?”, questionam.

Eles lembram que o Estado de MS é o primeiro em número de violência contra os povos indígenas e que, na visão deles, “parece que o Mato Grosso do Sul se tornou um campo de fuzilamento dos povos indígenas. Prova disso é a execução do Nísio”.

“Os índios vivem com medo, medo de morrer. Mas isso não aquieta a luta pela demarcação das terras indígenas”, afirmam em frases que lembram as palavras do líder Marçal de Souza, Tupã I, pouco antes de ser assassinado em 1983: “Sou uma pessoa marcada para morrer, mas por uma causa justa a gente morre...”.

Eles terminam a carta/relato, dizendo que Ñandejara (Deus em guarani) está do ‘lado do bom’ e que certamente fará justiça. “Quem faz a justiça final é ele. Se a justiça da terra não funcionar a justiça de deus vai funcionar”, finalizam os acadê icos.



Fonte:

Assassinato de líder indígena toma as páginas de sites no Brasil e no Mundo

O assassinato de Nisio Gomes, líder indígena da etnia Guarani-Kaiowá do Tekora Guaiviry, na região de Amambai, no sul do Estado de MS, teve repercussão muldial, já nesta sexta-feira (18). Após o site do CIMI – Conselho Indigenista Missionário – estampar o assassinato do indígena a repercussão em sites brasileiros como Carta Capital, Brasil de Fato, Globo e Estadão, repercutiram a notícia.

Mais tarde, sites internacionais como o da entidade internacional de luta em defesa dos povos indígenas, Survival International, deram lugar em suas capas para noticiar a brutalidade com que o líder foi assassinado, apontando que o indígena foi morto na frente de sua comunidade. A Rádio Vaticano também noticiou o fato.

Já o site da BBC, em sua página sobre a América Latina destaca, com o título "Brazil indigenous Guarani leader Nisio Gomes killed", que os conflitos de terra entre indígenas e fazendeiros no Brasil é comum, mas afirma que os conflitos tem se intensificado: “O grupo sofre uma grave escassez de terra no Brasil, que piorou como o ‘boom’ na agricultura, o que tem levado agricultores e pecuaristas de estender suas explorações”.

Com o título “Masked gunmen attack Brazilian Indian leader in shock execution”, o site do Survival International afirma que a liderança ‘religiosa’ indígena Nisio Gomes, chamado de ‘Xaman’ (guia espiritual indígena) na matéria, era o alvo principal dos jagunços. Eles reproduzem a fala de um dos indígenas: “Vieram matar nosso lider”.

O site relaciona a morte de Nisio a outro caso, como afirma a entidade, ‘muito parecido’ com o de outra liderança, o indígena Marcos Verón, assassinado na frente da filha em janeiro de 2003, na fazenda Brasília do Sul, em Juti, também no sul do Estado.

Na ocasião, quatro homens armados efetuaram disparos contra os índios, além de os espancarem e ameaçarem. O ataque, cujo objetivo era expulsar o grupo da área ocupada, resultou na morte do cacique Marcos Veron na época, com 72 anos.

O Diretor da Survival International, entidade de defesa dos povos tradicionais no mundo, Stephen Corry, fez um alerta: “parece que os fazendeiros não estarão satisfeitos até matarem todos os Guarani. Este nível de violência contínua era comum no passado e resultou na extinção de milhares de grupos e sociedades indígenas. É uma absoluta vergonha que o governo brasileiro permita que esta violência continue nos dias atuais”.

O site posta junto da matéria o depoimento da filha de Marcos Veron, recém-formada em licenciatura indígena na UFGD, a guarani-kaiowá, Valdelice Veron.



Fonte:
18/11/11, 19h20

Testemunha envolve 'carro de chapa branca e fardados' em morte de líder indígena no MS

A reportagem do Midiamax entrevistou o filho de Nisio Gomes, líder indígena executado por um bando fortemente armado na manhã de ontem, 18/11, no acampamento Guarani-Kaiowá, que fica entre fazendas da região de Ponta-Porã e Amambai.

Valmir Gomes forneceu as mesmas declarações que à Polícia Federal de Ponta Porã, que são reproduzidas aqui. Ele afirma que alguns dos pistoleiros encapuzados que dispararam contra cerca de 520 índios tinham roupas com detalhes que lembravam militares. E uma das caminhonetes possuia chapa branca.

Além disso, o líder conta que três crianças foram sequestradas pelos bandoleiros, também paraguaios.

O assassinato do líder, que teve o corpo carregado pelo bando, que forma uma força paramilitar na região, teve repercussão nacional e internacional.

Reportagem - Como começou o tiroteio?

Valmir -Nas 6.25 horas eu olhei do outro lado, eu vi umas sete pessoas. E no meio, o paraguaio chamado Paulo Recarte(?), ele é um camisa amarela, mesmo. Ai falou assim: “Depois quando chegaram ai no acampamento, “tiro, tiro, tiro” – falando assim. Aí que o pai já falou “tiro, tiro, tiro mesmo”... aí ficou doido meu pai, depois eu também, depois caiu o meu pai, mesmo.

R - Você viu o seu pai morto?
V - Mas viu, viu na minha cara mesmo, pegou talho na cabeça, outro na face e outro na perna – calibre 12.

R - Quem foi que atirou no seu pai?
V - O pistoleiro, mesmo. Tudo pistoleiro do fazendeiro, aí.

R - Eles são ligados a que fazendas?
V - Tem fazenda Chimarrão, Querência,tem Ouro Verde, também.

R - Depois que atiraram no seu pai, o que fizeram?
V - Depois que atiraram no meio pai aí, carregaram no Toyota Hilux, cor prata. Depois de colocar, falaram assim: “eu não falei pra matar”, falou assim aquele paraguai, na língua deles, falando em guarani, na língua deles, falando. Aí que o papai já estava na caminhonete, depois “queimaram o foguete”. Depois, seguimos atrás das caminhonete. Na última caminhonete, uma caminhonete Ranger, cor verde ou azul escuro,tinha um símbolo de “gavião” mesmo, um símbolo de gavião mesmo. Aquele homem igual que o oficial, oficial de quartel, mesmo. Ai outro vestiu de camisa de soldado, soldado mesmo, tem símbolo na (....) o chapeuzinho tem símbolo, mesmo, tudo lá. Escondeu as placas com papelão, só que uma caminhonete Ford Ranger é chapa branca, chapa branca.

R - E você já falou isso para a Polícia Federal? (de Ponta Porã)
V- Já, já falei a ocorrência com meu pai, na Polícia Federal.

R - Você acha que além do seu pai, tem mais vítimas?
V - Temos, temos, temos. Levaram uma menina de 12 anos, um rapaz de 12 anos, e uma criança de 5 aninhos.

R - Levaram como?
V -Levaram junto com o corpo do meu pai.

R - Na caminhonete?
V - Na caminhonete Hilux, cor cinza.

R - E essas pessoas estavam feridas?
V - Não, não estavam feridas, eles estavam chorando rodeando junto com o corpo do meu pai e aí pegaram.

R - Não apareceu até agora?
V - Até agora não apareceu mesmo, e o corpo do meu pai, eu queria ver o corpo do meu pai.

R - E eles atiraram no seu pai ou atiraram em todo mundo(cerca de 520 pessoas)?
V - Atiraram em todo mundo, só que não acertaram tava tudo no meio do mato, mesmo.

R - O que você vão fazer agora?
V - Agora eu vou juntar mais gente, a não vai sair mais.

R - E se esse povo vier de novo?
V - Se esse povo vem, ah.. agora que nós vamos fazer (.?..) tá ferrado, mesmo.



Fonte:

Lideranças indígenas vão ao local onde 'chacina' foi cometida; ASSISTA O VÍDEO

O vereador indígena de Caarapó, Otoniel Ricardo (PT), representando o Conselho Continental Grande Povo Guarani, juntamente com as lideranças indígenas Valdir Turiba, 'Zezinho' do conselho Aty Guaçu e Eliseu Lopes, representante da Apib (Articulação do Povo Indígena do Brasil), acompanhados do antropólogo Tonico Benites, da consultoria indígena do MEC, se dirigem neste momento para a região de Amambai.

O grupo deve acompanhar o caso do assassinato da liderança Guarani-Kaiowá Nizio Gomes, que teria sido morto por milícia de fazendeiro na região da fronteira. O indígena liderou a reocupação do Tekoha Guaiviry, que está sub júdice, depois de firmado TAC (Termo de Ajuste de Conduta) entre Ministério Público Federal, FUNAI (Fundação Nacional do Índio) e lideranças indígenas.

A Polícia Federal e a Força Nacional baseada em Ponta Porã, também se deslocam para o região do Tekoha Guaiviry, onde já esta Funai conforme informações obtidas pelo Midiamax.


Chacina

Na manhã desta sexta-feira (18), por volta das 6h, a ocupação índigena Tekoha Guaiviry foi atacada por cinco camionetes com um grupo de homens fortemente armados, três dos quais trajando uniformes militares, abriram fogo contra os índios acampados. As informações são de que Nizio Gomes, líder da aldeia Guarani-Kaiowá de Amambai, uma criança e uma mulher foram mortos, seus corpos carregados e camionetes e levados do acampamento para um local desconhecido.


A ocupação

Os índigenas da etnia Guarani-Kaiowá que estavam assentados na beira da rodovía BR-163 retomaram recentemente as terras após realizar o Aty Guaçu, grande reunião de lideranças da etnia, na quarta-feira (16), um ato de solidariedade ao grupo de Guaiviry. Segundo informações, depois da visita ao local, o ônibus dos indígenas foi retido por fazendeiros armados, sendo liberado após várias horas de negociação com os indígenas.

A área em disputa faz parte de um TAC (Termo de Ajuste de Conduta) assinado em Brasília, entre o Ministério Público Federal, a Funai e todas as lideranças indígenas da região, em novembro de 2007.

O TAC prevê a retomada dos “Tekoha”, a área tradicional originária de cerca de 39 comunidades indígenas, expulsas da terra, remotamente, por fazendeiros que ocuparam a área.

Assista ao vídeo em que os índios denunciam o massacre:

MOÇÃO DE REPÚDIO CONTRA A VIOLÊNCIA - ANPUH - MS

Marçal Guarani, Durvalino, Marcos Verón, prof. Rolindo Vera, Prof Genivaldo, Lísio Gomes... presentes!

Há mais de 28 anos assassinatos, episódios de violência física, linguística, política e econômica contra os povos indígenas de Mato Grosso do Sul seguem impunes. Esses episódios estão muito bem documentados segundo critérios acadêmicos por diversos historiadores em dissertações, teses e em Centros de Documentação Indígena, disponíveis para consulta pública nas universidades públicas e comunitárias em Mato Grosso do Sul.

Muitas pesquisas históricas indicam que os indígenas foram expulsos das terras à medida que os conquistadores chegaram e, posteriormente, fazendas foram implantadas, florestas desmatadas, impondo mudança dos índios para outras localidades. Esses conflitos atuais estão relacionados à tentativa dos índios em retomar o espaço que lhes pertence.

Tragicamente, essa expropriação, ancorada por preconceitos engendrados desde a chegada dos portugueses e espanhóis para justificar a colonização, encontra respaldo e aumenta com a impunidade cuja mensagem nos parece clara: a vida de um índio pouco vale.

Diante da denúncia do assassinato e desaparecimento do corpo do cacique Nísio Gomes na última sexta-feira (18), em Guaviry, Aral Moreira, MS, a Associação Nacional de História, seção MS, vem a público fazer coro e apoiar o clamor dos Kaiowá e Guarani às autoridades para que ajam frente à

Campo Grande, MS, 23 de novembro de 2011.s verdadeiras milícias que, a despeito do Estado, seguem agindo na região.


Fonte:

NOTA DE REPÚDIO - COMISSÃO REGIONAL DE JUSTIÇA E PAZ – CNBB Oeste 1

Diante do lamentável fato ocorrido hoje na área do acampamento GUAIVIRY, localizado entre Amambai e Ponta Porã, vimos manifestar a nossa indignação e repúdio por mais esse ato de violência cometida contra nossos irmãos indígenas.

A morte do líder indígena kaiowá –guarani, cacique Nizio Gomes , põe às claras a situação de abandono e vulnerabilidade em que se encontram os povos indígenas em nosso Estado. O crime premeditado e executado por dezenas de pistoleiros fortemente armados se mostra como resultado da histórica omissão do poder público, a que não podemos ficar calados ou indiferentes.

Diante da barbárie ocorrida no Tekoha Guaiviry na madrugada de hoje o povo sul-mato-grossense, com raízes culturais e religiosas que rejeitam a violação de direitos humanos, especialmente dos mais desprotegidos, clama por justiça.

Espera-se que o clamor popular provoque uma reação imediata e firme das autoridades contra os mandantes do massacre, acabando com a situação de impunidade que vem reinando em nossa região. Esperamos que a “lei do mais forte” não impeça a ampla divulgação do acontecido, para que a população conheça a verdade. Que seja dada resposta à indagação de Deus: “o que foi que você fez? Ouço o sangue do seu irmão clamando da terra por mim” (Gn 4,10).
 
Manifestamos também nossa solidariedade com as famílias das vítimas, mortos, feridos e desaparecidos que sofreram esse bárbaro ataque.



Campo Grande, 18 de novembro de 2011.
Secretária executiva
Comissão Regional de Justiça e Paz